domingo, 16 de maio de 2010

  Subitamente, um rapaz moreno, bem aprumado, atravessa o enquadramento. Eu lembrava-me daquele rosto escuro, o olhar fulminante, os lábios carnudos, roupas largas e coloridas. Estranho sedutor. Mas onde o teria visto? Tinha a certeza que já era meu conhecido. E aquele cabelo comprido. Oh, não me enganam. Este conheço-o eu de ginjeira. É a minha inspiração. Todas as noites, enquanto agarro a caneta e procuro uma folha de papel já rasurada de um dos lados, ouço-o chegar. Ouço as sapatilhas gastas a roçarem o chão de madeira que o guia até ao meu humilde quarto, ouço cada bombear de sangue que lhe alimenta o corpo. Agora que está perto de mim, faço dele o que bem entender: sábio aprendiz, vagaroso civil, marginal em fase de iniciação, ou melhor, o meu gentil e cavalheiro homem.
  Vamos trabalhar. Durante este pouco tempo que tenho para analisar todos os movimentos que me apetece que faça, que ninguém se atreva a interromper-me. Durante este pouco tempo, a imaginação está a meu favor, flui como se de uma flor primaveril se tratasse. É melhor apressar-me. Amanhã de manhã tudo voltará ao início e eu não saberei de novo de onde conheço esse rapaz.

Eu gosto de ti, mas tu não existes.

Um beijo e até amanhã, meu homem.

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